Há 4 meses, descobri ser soro +, há algumas semanas saí de casa e comprei um carro, há alguns dias passei na Universidade Estadual, e há algumas horas sinto que não sou mais o mesmo que fui em 25 anos. Confuso né? Igualzinho a mim, talvez eu nem devesse está escrevendo esse texto aqui, talvez não faça sentido algum, talvez o Hercúles me brigue por está usando esse espaço pra declamar minhas confusões. Mas o fato é que apesar de tanta coisa boa que me tem acontecido, sinto como se o HIV destruísse todos eles.
Hoje acordei meio arrasado com essa doença, tive um sonho ruim com ela. É a quinta vez que sonho a mesma coisa: Um homem misterioso que se apresenta a mim como o vírus e me diz coisas medonhas sobre meu futuro, e no sonho de ontem, ele entrava no meu quarto dando gargalhadas e de forma irônica e debochada dizia: Você tá feliz por que? Porque passou no vestibular? Porque comprou um carro? Você não vai ter tempo de aproveitar tudo isso! Você tem uma doença que não tem cura, você vai morrer antes dos seus amigos e de completar esse ciclo e sabe o que é pior? Sozinho! E saía do meu quarto dando gargalhadas que me faziam estremecer de medo. Ainda ouço bem alta na minha memória.Sei que só foi um sonho, mas acordei na madrugada morrendo de medo e me vi exatamente como ele tinha me deixado no sonho: doente, com medo e SOZINHO.
Estou traumatizado com isso, com a doença, sentindo falta da minha avó, de um amor, de um colo. Acordei pensando que não importa se somos fortes, traumas sempre deixam uma cicatriz. Seguem-nos até nossas casas, mudam nossas vidas. Traumas derrubam a todos, mas talvez essa seja a razão. Toda a dor, o medo, as idiotices. Talvez viver isso é que nos faz seguir adiante, é o que nos impulsiona. Talvez precisamos cair um pouco para levantar novamente né? Acho que sim!
Talvez quanto mais tentamos ficar alegres, mais confusos ficamos. Até não nos reconhecermos mais. Ao invés disso continuamos sorrindo, tentando ser a pessoa feliz que queríamos ser! Até que a ficha cai, e ele (o vírus) sempre estará lá... não só nos meus sonhos e medos, mas no conhecido e diário, ele agora é o que me resta, é minha família, o meu inferno particular!
Victor
"Homem misterioso de todas as noites, homem distante de algum lugar… Homem presente, revertendo o passado e apontando o futuro. Homem que chega do nada alterando o nada de sempre, marcando território em terra sem dono, de ninguém; terra que muitos deixaram passar. Homem de olhares ainda não vistos, misteriosa semente de desesperança que faz crescer o broto já morto apontando o azul do céu sem nuvens, passageiro de um porto inseguro. De que é que você brinca? Que horas você volta? Onde é que você some? Que horas você volta? Quem é essa voz? Que assombração seu corpo carrega? Terá um capuz? Será o ladrão? Que horas você chega? Eu, quando não durmo, quem é que você chama? Fora eu, no sonho de quem você vai e vem?… Que horas, me diga; que horas, me diga… Que horas você volta? Não quero estar aqui!"